Otite externa guia prático para seu alívio
Entenda a dor no ouvido após nadar e descubra o caminho seguro para aliviar a inflamação e voltar à rotina.
Se você chegou até aqui, é muito provável que esteja lidando com uma dor latejante e intensa no ouvido, daquelas que pioram apenas de encostar na orelha ou ao mastigar.
A otite externa, popularmente conhecida como “ouvido de nadador”, é uma condição que pode transformar dias de descanso na praia ou na piscina em um verdadeiro pesadelo de desconforto.
Muitas pessoas ficam confusas sem saber se devem pingar álcool, usar hastes flexíveis ou aplicar calor, e frequentemente essas atitudes caseiras acabam piorando o quadro. Nosso objetivo aqui é esclarecer exatamente o que está acontecendo dentro do seu canal auditivo, diferenciando infecções bacterianas (como a temida Pseudomonas) das infecções fúngicas, e traçar um caminho claro para o seu alívio.
Pontos de atenção imediata para o seu alívio:
- Mantenha o ouvido absolutamente seco durante o banho usando proteção adequada, pois a umidade é o combustível da infecção.
- Evite a inserção de qualquer objeto no canal auditivo, incluindo hastes flexíveis de algodão ou grampos, para não causar microlesões.
- O movimento de puxar a orelha (pavilhão auricular) ou apertar a cartilagem da frente (tragus) costuma causar dor intensa, o que é um forte indicativo desta condição.
- Tratamentos com gotas otológicas prescritas são geralmente superiores aos antibióticos orais para este tipo específico de inflamação.
Compreender a natureza da sua dor é o primeiro passo terapêutico. Vamos caminhar juntos pelas causas, pelos exames que seu médico pode solicitar e pelas soluções mais seguras disponíveis hoje.
Acesse nossa categoria de Otorrinolaringologia para mais conteúdos sobre saúde auditiva.
Visão geral do contexto da otite externa
A otite externa é, de forma simples, uma inflamação ou infecção da pele que reveste o canal auditivo externo, aquele túnel que vai da orelha visível até o tímpano.
[attachment_0](attachment)
Ela se aplica frequentemente a nadadores, surfistas, pessoas que vivem em climas muito úmidos e quentes, ou indivíduos que têm o hábito de limpar excessivamente os ouvidos, removendo a cera protetora natural.
O tempo de tratamento geralmente varia de 7 a 10 dias com o uso de gotas medicamentosas, e o custo costuma ser acessível, envolvendo principalmente a consulta médica e a compra do colírio/gota otológica.
Os fatores-chave que ajudam você a decidir o melhor desfecho incluem a interrupção imediata do contato com a água, o diagnóstico correto do agente causador (bactéria ou fungo) e a adesão rigorosa ao horário das gotas prescritas.
Quando esses fatores são respeitados, o alívio da dor costuma ser rápido, muitas vezes notado nas primeiras 48 a 72 horas após o início do tratamento correto. Ignorar os sinais, por outro lado, pode prolongar o sofrimento e exigir intervenções mais complexas.
Seu guia rápido sobre Otite Externa (Ouvido de Nadador)
- A dor é a protagonista: Uma sensibilidade extrema ao tocar a orelha é a marca registrada da condição, diferenciando-a de outras infecções mais internas.
- A água é o gatilho: O excesso de umidade altera o pH natural do ouvido, criando o ambiente perfeito para bactérias e fungos se multiplicarem.
- A cera é sua amiga: O cerume tem propriedades ácidas e antibacterianas; removê-lo agressivamente deixa seu canal auditivo desprotegido.
- As gotas são o foco: O tratamento padrão-ouro foca em medicação tópica (diretamente no ouvido), evitando os efeitos colaterais de remédios tomados pela boca.
- A limpeza médica pode ser necessária: Em casos onde há muito inchaço ou secreção, o médico otorrinolaringologista precisará aspirar o canal antes de você começar a usar as gotas.
Entendendo a inflamação e os patógenos no seu dia a dia
Para entender por que seu ouvido dói tanto, precisamos olhar para a anatomia do seu canal auditivo. É um espaço escuro, quente e, frequentemente, úmido. Quando você nada ou toma banhos longos, a água entra e, se não evaporar adequadamente, começa a macerar a pele fina que reveste esse canal.
A pele do ouvido é muito fina e está colada diretamente sobre a cartilagem e o osso. Isso significa que, quando ocorre um inchaço causado pela inflamação, não há espaço para a pele expandir, gerando uma pressão imensa e uma dor desproporcional ao tamanho da lesão.
Diferenciando os invasores do seu ouvido:
- Pseudomonas aeruginosa (Bactéria): É a causa mais comum. Você costuma sentir muita dor, inchaço rápido e notar uma secreção amarelada ou esverdeada, às vezes com um odor característico.
- Fungos (Candida ou Aspergillus): Conhecida como otomicose. O sintoma principal inicial costuma ser uma coceira desesperadora, seguida de sensação de ouvido entupido, como se houvesse algodão molhado lá dentro.
- Mistos: Infecções que começam bacterianas e, após o uso prolongado de antibióticos tópicos, abrem espaço para os fungos se instalarem.
Seu corpo tem defesas naturais incríveis. A cera que você muitas vezes tenta remover com hastes flexíveis é, na verdade, uma barreira hidrofóbica (que repele água) e ácida.
Ao inserir objetos para “limpar” essa cera, você não apenas remove o escudo protetor, mas também cria microfissuras invisíveis na pele do canal. Essas pequenas feridas são as portas de entrada pelas quais as bactérias da piscina ou os fungos do ambiente entram na sua corrente sanguínea local e causam o estrago.
Ângulos práticos que mudam o desfecho para você
O alívio da otite externa depende muito de uma mudança de comportamento imediata. Não basta apenas comprar um remédio na farmácia e continuar com a rotina normal de banhos de mar ou piscina.
A proteção rigorosa contra a água durante o banho de chuveiro é vital. Um truque prático frequentemente recomendado é usar um algodão embebido levemente em óleo de bebê ou vaselina na entrada do ouvido apenas durante o banho, criando uma barreira impermeável, e retirando logo em seguida para deixar o ouvido ventilar.
Outro ângulo crucial é a gestão da dor nos primeiros dias. Analgésicos e anti-inflamatórios orais podem ser recomendados pelo seu médico para ajudar você a dormir e a tolerar o desconforto inicial enquanto as gotas auriculares começam a combater a infecção.
Caminhos que você e seu médico podem seguir
A jornada para a cura quase sempre se inicia no consultório médico, onde a primeira e mais importante etapa é a avaliação com o otoscópio.
Se o seu canal estiver completamente bloqueado por secreção, descamação ou inchaço, as gotas que você pingar em casa nunca chegarão ao local da infecção. Nesses casos, o médico fará uma limpeza cuidadosa sob visão microscópica ou usando um aspirador delicado.
Em situações de inchaço muito severo, onde o canal se fecha (um estado que chamamos de estenose), o profissional poderá inserir um pequeno curativo expansível (um “otowick” ou tampão medicinal) dentro do seu ouvido. Esse dispositivo ajuda a manter o canal aberto e serve como um pavio para absorver as gotas medicamentosas e conduzi-las para dentro do ouvido.
Aplicação prática: Passo a passo para pingar as gotas
Muitas pessoas falham no tratamento não porque o medicamento é ruim, mas porque aplicam de forma incorreta. Instilar gotas em si mesmo pode ser desafiador, então, se possível, peça ajuda a alguém em casa.
Passo 1: Aqueça o frasco. Segure o frasco de medicamento entre as mãos por alguns minutos. Gotas geladas aplicadas diretamente no ouvido podem causar tontura severa e vertigem devido ao reflexo do labirinto.
Passo 2: Posição correta. Deite-se de lado em uma cama ou sofá, com o ouvido afetado voltado para o teto. Não tente fazer isso em pé inclinando a cabeça no banheiro; o líquido não vai descer corretamente.
Passo 3: Alinhando o canal. Se você é adulto, puxe a parte superior da orelha suavemente para cima e para trás. Isso ajuda a retificar o canal auditivo, que tem uma leve curvatura em forma de “S”.
Passo 4: Instilação. Pingue o número exato de gotas recomendado pelo seu médico. Não encoste a ponta do frasco na pele do ouvido infectado, para evitar a contaminação do frasco e futuras reinfecções.
Passo 5: A técnica da “bomba”. Após pingar, pressione e solte suavemente aquela pequena cartilagem na frente do ouvido (o tragus) algumas vezes. Esse movimento de bombeamento empurra o líquido até o fundo do canal, onde ele precisa agir.
Passo 6: Paciência. Continue deitado por 3 a 5 minutos. Levantar rápido fará com que o medicamento escorra para fora antes de ser absorvido pela pele doente.
Detalhes técnicos da infecção e da farmacologia local
A microbiota natural do meato acústico externo é bastante equilibrada em indivíduos saudáveis. No entanto, alterações no pH (normalmente em torno de 4 a 5, que é ácido) são o primeiro passo para o desenvolvimento da otite. A água da piscina, frequentemente tratada com cloro, e a água do mar têm pH mais alcalino.
[attachment_1](attachment)
Quando a água se acumula, o pH do ouvido sobe, e a lisozima (uma enzima protetora presente na cera) perde sua eficácia. É nesse ambiente menos ácido e mais úmido que a bactéria Pseudomonas aeruginosa, um microrganismo oportunista formador de biofilme, encontra condições ideais para prosperar e causar danos aos tecidos superficiais.
Do ponto de vista terapêutico, o tratamento costuma utilizar agentes tópicos que combinam múltiplas frentes de ataque. As formulações comuns incluem um antibiótico (como a ciprofloxacina ou a neomicina) para matar a bactéria e um corticosteroide (como a hidrocortisona ou dexametasona) para reduzir rapidamente a inflamação e a dor excruciante.
Se o diagnóstico revelar uma otomicose (infecção fúngica, geralmente por Aspergillus niger ou Candida albicans), o uso de antibióticos com corticoides pode, na verdade, alimentar o fungo e agravar o quadro. Nesses casos, o tratamento foca na acidificação contínua do canal e no uso de antifúngicos tópicos específicos, como o clotrimazol ou soluções de ácido bórico.
Estatísticas e leitura de cenários na rotina do paciente
É incrivelmente comum observar um pico de pacientes buscando ajuda médica para otite externa durante os meses de verão e períodos de férias escolares. Estudos apontam que a incidência dessa condição pode ser até cinco vezes maior nas estações quentes do que no inverno.
Se você tem o hábito de nadar regularmente em piscinas públicas ou lagos, você estatisticamente pertence a um grupo de alto risco. A imersão frequente não dá tempo para o ouvido se secar completamente e regenerar sua barreira lipídica protetora.
Existe também um cenário que exige atenção redobrada: pacientes com diabetes não controlado ou que possuem a imunidade comprometida. Nesses grupos, uma simples otite externa pode rapidamente evoluir para uma condição grave chamada “Otite Externa Maligna” (ou necrotizante).
Nesta complicação rara, a infecção bacteriana avança da pele para o osso do crânio, causando uma osteomielite da base do crânio. Por isso, se você é diabético e a dor no ouvido não melhorar após os primeiros dias de gotas, ou se houver dor de cabeça severa associada, o cenário muda e a busca por reavaliação médica deve ser imediata e sem hesitação.
Exemplos práticos de evolução e tratamento
O cenário do surfista de final de semana
A situação: João passou três dias seguidos no mar. No quarto dia, acordou com o ouvido direito latejando e a sensação de que estava surdo daquele lado. Ao tentar limpar com uma toalha, sentiu uma dor aguda.
A conduta: Ele evitou colocar hastes flexíveis e foi ao médico. O exame mostrou o canal inchado por infecção bacteriana (Pseudomonas). A secreção foi aspirada pelo especialista.
O desfecho: Tratado com gotas de ciprofloxacina e corticoide por 7 dias. João aprendeu a usar protetores auriculares específicos para surfistas e secar suavemente os ouvidos com a ponta da toalha ou secador em temperatura fria, prevenindo novas crises.
O cenário do uso excessivo de remédios
A situação: Maria teve uma dor de ouvido e usou sobras de gotas antibióticas do filho por conta própria durante semanas. A dor melhorou, mas foi substituída por uma coceira desesperadora e secreção espessa parecida com papel molhado.
A conduta: A automedicação prolongada destruiu a flora normal do ouvido e gerou um supercrescimento de fungos (otomicose). O médico precisou interromper o antibiótico imediatamente.
O desfecho: Foram necessárias limpezas profundas no consultório para remover os esporos fúngicos e o uso de gotas antifúngicas associadas a ácido acético. A recuperação levou cerca de 14 dias de disciplina rigorosa.
Erros comuns que atrasam a sua cura
Uso de hastes flexíveis (Cotonetes) no canal
Este é, de longe, o erro mais frequente. Inserir a haste flexível com algodão na ponta não seca o ouvido adequadamente; em vez disso, empurra a sujeira e a cera infectada mais para o fundo, além de arranhar a pele fina do canal, piorando a inflamação e abrindo caminho para mais bactérias.
Pingar soluções caseiras não orientadas
Algumas pessoas tentam pingar álcool puro, água oxigenada, azeite quente ou chás no ouvido. Na vigência de uma inflamação aguda, essas substâncias podem ser extremamente irritantes, causam dor intensa e podem piorar o inchaço dos tecidos. Além disso, se por acaso houver uma perfuração invisível no tímpano, esses líquidos podem causar danos à audição.
Parar o tratamento antes do tempo estipulado
Como as gotas otológicas com corticoide costumam aliviar a dor em cerca de 48 horas, muitos pacientes acreditam que a infecção acabou e suspendem o medicamento. Interromper o ciclo antes dos 7 a 10 dias recomendados favorece o retorno rápido da infecção e aumenta o risco de resistência bacteriana.
Usar “cones chineses” ou velas de ouvido
Esta prática alternativa, além de não ter nenhuma eficácia científica comprovada para remover umidade ou infecção, apresenta um risco altíssimo de queimaduras graves na pele sensível do canal auditivo e do rosto, complicando imensamente um quadro que era simples de tratar.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O ouvido de nadador pode passar de uma pessoa para outra?
Não. A otite externa não é uma doença contagiosa que se transmite pelo ar ou pelo contato social comum. Ela se desenvolve por fatores individuais, como acúmulo de umidade, traumas na pele do ouvido e alterações no pH local que permitem o crescimento de germes já presentes no ambiente ou na própria pele da pessoa afetada.
Você pode dividir a mesma piscina com alguém que está com ouvido de nadador sem problemas. O cuidado que se deve ter é evitar o compartilhamento de fones de ouvido intra-auriculares (aqueles que entram no canal) ou protetores de ouvido, pois estes objetos podem carregar as bactérias ou fungos para um canal auditivo previamente ferido, aumentando o risco de inoculação direta.
2. Posso continuar tomando banho de piscina ou mar durante o tratamento?
Não, de forma alguma. Continuar expondo o ouvido infectado à água da piscina ou do mar é o maior fator de falha terapêutica. A água vai diluir a medicação que você aplicou, introduzir novos microrganismos na área sensível e prolongar o processo inflamatório e de maceração da pele.
É fundamental que você se abstenha de nadar e mantenha o ouvido rigorosamente seco por pelo menos 7 a 10 dias, ou conforme a orientação do seu médico. Até mesmo durante o banho de chuveiro diário, é altamente recomendável proteger o ouvido com um pedaço de algodão untado com pomada ou vaselina para evitar que a água escorra lá para dentro.
3. Por que a dor dessa inflamação é tão forte e insuportável?
A dor extrema da otite externa é explicada pela anatomia única do seu ouvido. A pele que recobre o canal auditivo externo é finíssima e encontra-se fortemente aderida ao osso e à cartilagem subjacentes, sem uma camada de gordura para amortecer o inchaço. Quando ocorre a infecção e o tecido inflama, ele tenta se expandir.
Como não há espaço para essa expansão, a pressão aumenta drasticamente sobre as terminações nervosas sensíveis daquela região. Isso causa uma dor aguda e latejante, que piora com qualquer movimento da mandíbula (como mastigar ou falar) e ao tocar ou puxar a parte externa da orelha, tornando até o ato de apoiar a cabeça no travesseiro um grande desafio.
4. É normal sentir como se o ouvido estivesse tampado ou ter zumbido?
Sim, é uma sensação bastante comum e esperada. À medida que a infecção avança, a pele do canal auditivo incha consideravelmente (edema). Além disso, a resposta do seu corpo à infecção gera restos celulares, pus, secreção e, no caso de infecções fúngicas, massas densas de esporos e descamação.
Todo esse material se acumula no estreito túnel do ouvido, bloqueando fisicamente a passagem das ondas sonoras até o tímpano. Isso gera uma surdez temporária (perda auditiva condutiva) e pode causar a percepção de zumbidos ou ecos na sua própria voz. A audição normaliza completamente assim que o inchaço diminui e os detritos são limpos ou absorvidos.
5. Como posso secar o ouvido de forma segura após nadar?
A maneira mais segura de secar o ouvido é a mais simples e menos invasiva possível. Incline a cabeça para os lados e deixe a força da gravidade atuar, puxando levemente a orelha para trás e para cima para ajudar a retificar o canal e facilitar a saída da água. Você pode usar a ponta de uma toalha macia apenas para enxugar a entrada do ouvido, sem empurrá-la para dentro.
Outra técnica excelente é usar um secador de cabelo na temperatura fria ou morna, posicionado a cerca de 30 centímetros de distância da orelha. Movimente o secador suavemente de um lado para o outro por alguns minutos para evaporar a umidade interna sem tocar em nada, preservando a integridade da pele e da cera protetora.
6. Devo usar remédios caseiros como vinagre ou álcool?
Essas substâncias só têm algum papel na prevenção de problemas, não no tratamento de uma infecção já instalada. Pessoas com ouvidos saudáveis que nadam com frequência às vezes usam uma mistura preventiva de álcool isopropílico (para secar) e vinagre branco (para acidificar) logo após nadar, o que ajuda a evitar que a bactéria se instale.
No entanto, se você já está com dor e o ouvido está inflamado, você nunca deve pingar essas misturas. O álcool e o vinagre vão causar uma queimação excruciante na pele ferida, agravando a irritação e o desconforto. Uma vez que os sintomas de dor começam, apenas medicação prescrita pelo médico deve ser aplicada no ouvido doente.
7. Os antibióticos em comprimido são melhores do que as gotas?
Na maioria esmagadora dos casos de otite externa simples, não. O tratamento de escolha, padrão-ouro, são as gotas otológicas. Quando você pinga o medicamento diretamente no ouvido afetado, você atinge uma concentração do antibiótico no local da infecção centenas de vezes maior do que seria possível tomando um comprimido.
Além de serem muito mais eficazes para atingir os germes da pele do canal auditivo, as gotas têm ação local, evitando que os antibióticos orais matem a flora intestinal saudável ou causem efeitos colaterais sistêmicos como dores de estômago ou diarreia. Antibióticos orais só são recomendados se a infecção se espalhar muito além da orelha ou em casos de pacientes imunossuprimidos.
8. Como sei se a minha infecção é por fungo (otomicose) e não bactéria?
A diferenciação exata só pode ser feita pelo médico com o uso de equipamentos de ampliação, como o otoscópio ou o microscópio. No entanto, o sintoma principal costuma dar uma pista: infecções bacterianas costumam causar uma dor muito aguda e rápida, com secreção purulenta amarelada ou esverdeada e um inchaço intenso.
Por outro lado, as infecções por fungos muitas vezes começam com uma coceira muito incômoda e persistente, antes de evoluir para a dor. Durante o exame, o médico muitas vezes consegue enxergar a massa fúngica, que se parece com pedaços de algodão úmido com pequenos pontos pretos ou brancos (hifas e esporos). O tratamento é completamente diferente, dependendo de antifúngicos específicos.
9. Crianças sofrem muito com essa doença? Como protegê-las?
Sim, o ouvido de nadador é extremamente comum na faixa etária pediátrica, principalmente entre os 7 e os 12 anos de idade, pois as crianças passam longos períodos brincando na água e têm canais auditivos mais estreitos, que retêm a umidade com mais facilidade. Elas costumam se queixar rapidamente de dor ao usar bonés, deitar no travesseiro ou quando alguém tenta limpar seus ouvidos.
Para protegê-las, a regra de ouro é limitar o tempo submerso e garantir uma secagem cuidadosa após a piscina, ensinando-as a inclinar a cabeça. O uso de tampões de natação de silicone macio sob medida ou faixas de neoprene para natação ajuda consideravelmente a bloquear a entrada de água. Aos pais, cabe a vigilância contínua para não permitir o uso de cotonetes pelos pequenos.
10. Quanto tempo demora para o ouvido desentupir e a dor sumir?
Quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento com gotas apropriadas é iniciado, a resposta costuma ser bastante satisfatória e rápida. Você deve começar a notar um alívio significativo da dor intensa nas primeiras 36 a 48 horas após a primeira aplicação. Analgésicos orais ajudam muito nesse período inicial crítico.
A sensação de ouvido entupido e o inchaço completo, no entanto, demoram um pouco mais para se resolverem totalmente. Geralmente, leva-se de 5 a 7 dias de tratamento contínuo para que a anatomia do canal auditivo volte ao normal e a audição seja plenamente restaurada. Se não houver nenhuma melhora após os primeiros três dias, o médico deve ser consultado novamente para reavaliar a medicação.
11. O que é o tampão de ouvido medicinal (otowick)?
O otowick, ou tampão expansível, é um pequeno dispositivo esponjoso, semelhante a um mini cilindro, utilizado pelo médico quando a infecção causou um inchaço tão grave que o canal auditivo se fechou quase completamente. Se você tentasse pingar gotas nesse canal fechado, o remédio apenas escorreria para o rosto e não chegaria à parte profunda do ouvido.
O especialista insere cuidadosamente este pequeno pavio no seu ouvido e pinga a medicação nele. Ao entrar em contato com o líquido, a esponja se expande suavemente, mantendo o canal aberto e conduzindo o antibiótico e o corticoide por toda a extensão da pele inflamada. Ele costuma cair sozinho após alguns dias à medida que o inchaço diminui, ou o médico o remove na consulta de retorno.
12. Ter otite externa de repetição é sinal de algum problema grave?
Geralmente não é sinal de uma doença imunológica grave, mas sim um reflexo de anatomia, ambiente ou hábitos recorrentes que perpetuam a vulnerabilidade da pele do canal auditivo. Pessoas que têm canais muito estreitos, produzem pouca cera protetora ou que sofrem de doenças crônicas de pele (como eczema, psoríase ou dermatite seborreica) têm uma tendência natural a recidivas.
Nesses casos de episódios recorrentes, o cuidado preventivo torna-se parte do estilo de vida. O médico pode prescrever gotas de manutenção para acidificar o ouvido regularmente ou orientar o uso restrito de tampões de banho protetores de alta qualidade. O importante é investigar com o especialista se o gatilho das repetições é fungo resistente ou uma simples irritação alérgica crônica que está sendo confundida com infecção.
Referências e próximos passos para sua saúde
As diretrizes para o tratamento da dor e da inflamação que abordamos neste artigo estão fortemente ancoradas nas recomendações da Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço (AAO-HNS), que estabelece a primazia da medicação tópica sobre a sistêmica para otites externas não complicadas.
O próximo passo lógico para você, se a dor estiver aguda no momento da leitura, é marcar uma avaliação médica. Se você já tem a prescrição em mãos, seu papel agora é organizar alarmes no seu celular para não perder os horários das gotas e manter a paciência para ficar deitado por alguns minutos a cada aplicação, garantindo que o remédio atue como esperado.
Base normativa e regulatória no Brasil
É importante ressaltar que a aquisição de antibióticos tópicos (como as gotas contendo ciprofloxacina ou polimixina) em farmácias brasileiras obedece a normas rígidas de controle. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), esses medicamentos exigem retenção da receita médica de controle especial.
Essa exigência regulatória existe para combater um problema global de saúde pública: a resistência bacteriana. O uso indiscriminado ou sobras de tratamentos passados podem fortalecer bactérias como a Pseudomonas aeruginosa, tornando infecções simples em problemas complexos e de difícil tratamento clínico.
Considerações finais
Lidar com o “ouvido de nadador” exige um pouco de paciência e uma mudança momentânea de hábitos, mas com os devidos cuidados médicos e protegendo-se da água, a recuperação costuma ser excelente e sem sequelas a longo prazo. Lembre-se de respeitar o tempo de cura do seu corpo.
Aviso Legal (Disclaimer): O conteúdo apresentado neste material possui caráter estritamente educativo e informativo. As informações aqui contidas não substituem a avaliação clínica presencial, o diagnóstico ou a prescrição de tratamentos por um médico devidamente registrado. Diante de dores severas, sangramento, febre ou perda auditiva, busque atendimento médico imediato. O uso de medicamentos deve sempre ser supervisionado por um profissional de saúde qualificado.

